Literatura de Cordel

Por mais de três séculos, o Brasil, privado de uma imprensa própria, foi palco de uma vigorosa literatura oral. A implantação da Imprensa Régia, em 1808 pela família real portuguesa, abriu as portas para a iniciativa editorial e, indiretamente, ajudou a construção de um projeto de país que talvez não fosse o pretendido por D. João VI. Esse fato talvez explique a permanência da Literatura de Cordel no país, levada tardiamente ao prelo, em comparação com modelos similares de poesia popular publicados na Europa e em outros países da América Latina. Inspirada principalmente na oralidade, a literatura popular em versos encontrou no Nordeste brasileiro – celeiro de lendas e de manifestações culturais as mais diversas, assombrado pelos cangaceiros desde o século XVIII – o cenário ideal. Antes da implantação de um sistema de editoração regular, a poesia popular circulava entre as camadas mais humildes das grandes cidades e dos grotões já havia algumas décadas, na voz de glosadores ou cantadores como Nicandro Nunes da Costa (1829-1918), Romano da Mãe d’Água (1840-1891), Silvino Pirauá (1848-1913) e Inácio da Catingueira (1845- 1878/1879).

Antes de serem levadas ao prelo, refundidas e ampliadas pela imaginação fértil dos poetas pioneiros, muitas histórias correram os sertões nas águas da tradição. Mas a travessia fatalmente seria feita. E, num Nordeste com forte presença do imaginário da Idade Média, dominado pelo misticismo e por crenças impregnadas do ideário dos romances de cavalaria, foi Leandro Gomes de Barros (1865-1918), poeta paraibano radicado em Recife, capital de Pernambuco, o herói desbravador da seara do Cordel. São dele alguns dos mais importantes textos do Cordel, reimpressos, sem interrupção, há mais de um século. A História de Juvenal e o dragão, por exemplo, traz em seu enredo o mais conhecido dos contos de heroísmo. Esse cordel, que faz parte da memória afetiva de muitas gerações, dialoga com o conto popular O matador de dragões. Composto em sextilhas de setissílabas, narra a jornada do herói Juvenal em busca de melhores condições de vida e seu encontro com um desconhecido, com quem troca os três carneiros que recebera de herança por três cachorros que, mais tarde, o auxiliam na luta contra um dragão, libertando uma princesa da morte e um reino de um tributo.

As obras escritas por Leandro, que incluem clássicos como O cachorro dos mortos, Peleja de Manoel Riachão com o Diabo e Vida e testamento de Cancão de Fogo, já ultrapassaram com folga a casa dos milhões de exemplares vendidos e são reeditadas há mais de cem anos ininterruptamente, fazendo de seu autor o mais importante criador da poesia popular brasileira. Leandro teve — e tem — muitos seguidores. João Martins de Athayde (1880-1959), seu sucessor, é o mais conhecido e controverso deles. Admirador de Leandro e igualmente paraibano, Athayde escreveu uma peleja fictícia com o ídolo, mesmo antes de conhecê-lo. Depois da morte do grande poeta, comprou em 1921 da viúva, Dona Venustiniana Eulália de Barros, os direitos de publicação de sua obra. Com o tempo, passou a suprimir a informação sobre a autoria de Leandro das capas dos folhetos e, não satisfeito, passou a assinar os títulos como se fossem de sua lavra. Estabelecido no Recife, onde criou um importante parque gráfico, Athayde publicou os principais autores de seu tempo.

O trabalho dos pioneiros irrigou o solo fértil do Cordel e ensejou o surgimento de uma importante geração de autores nas primeiras décadas do século XX: nomes como José Pacheco da Rocha (1890-1954), autor de A chegada de Lampião no Inferno, e Manoel d’Almeida Filho (1914-1995), cuja obra Os cabras de Lampião, sobre o famoso bandoleiro da Caatinga nordestina, é a mais completa de que se tem notícia. Já Manoel Camilo dos Santos (1905-1987) transportou para o romanceiro nordestino a Cocanha medieval, terra da eterna fartura, no memorável poema Viagem a São Saruê. O pernambucano João Ferreira de Lima (1902-1973), autor de Proezas de João Grilo, é outro exemplo – protagonista da obra, o espertalhão João Grilo, cuja origem pode ser rastreada nos contos luso-brasileiros, foi aproveitado pelo dramaturgo Ariano Suassuna na peça Auto da Compadecida (1955).

José Camelo de Melo Resende (1885-1964) é autor do maior êxito do Cordel brasileiro em todos os tempos, o Romance do Pavão Misterioso, escrito provavelmente em 1923. A história, que tem toques de contos maravilhosos e novelescos e dialoga com as narrativas de Mil e uma noites, gira em torno do amor do jovem turco Evangelista pela condessa grega Creusa, que, por ordem do pai, vive reclusa numa torre. O pavão do título é um maquinismo voador inventado pelo cientista Edmundo do qual o protagonista se serve para triunfar no amor, conforme a primeira estrofe do clássico romance:

Eu vou contar uma história

de um pavão misterioso

que levantou voo da Grécia

com um rapaz corajoso,

raptando uma condessa

filha de um conde orgulhoso.

O Folheto

Impressos originalmente em tipografias rústicas, no sistema de linotipia – em que o texto era montado artesanalmente, letra a letra –, também conhecido como “cata-cata”, geralmente em fonte Times, tamanho 12, os folhetos possuíam tamanhos variados, a depender do gênero ou do tema abordado. Uma folha de papel-jornal, de tamanho A4, dobrada em quatro partes rendia um folheto de oito páginas; duas folhas, um folheto de 16 páginas; e assim por diante. Compreensível, portanto, que fossem sempre múltiplos de quatro, com alguns títulos chegando a 48 páginas. O formato 11 x 15 cm era uniforme, com pequenas variações.

As capas, feitas de papel barato, do mesmo tipo usado para embrulho nos velhos armazéns, eram ilustradas com várias técnicas. Contudo, quando se fala em ilustrações no Cordel, evoca-se, de imediato, a xilogravura como a imagem por excelência. É preciso, porém, atentar para as outras formas e lembrar que a xilogravura só começou a ser utilizada em escala maior a partir da década de 1950 em Juazeiro do Norte (CE) e, mesmo assim, sob protestos veementes de leitores e revendedores. Os primeiros cordéis de Leandro Gomes de Barros, quando não eram vestidos por “capas cegas”, traziam vinhetas e adornos. João Martins de Athayde, a partir da década de 1920, recorreu a ilustradores e passou a usar clichês que reproduziam imagens de cartões-postais.

Em 1949, João Martins de Athayde vendeu ao alagoano José Bernardo da Silva os direitos de publicação de seu imenso acervo. Então, Stenio Diniz, neto de José Bernardo, recriou em xilogravura algumas capas de cordéis clássicos, como Proezas de João Grilo, Pedrinho e Julinha, A chegada de Lampião no Inferno e História da Donzela Teodora. José Bernardo, que era representante de Athayde em Juazeiro do Norte (CE), já havia utilizado xilogravuras de Damásio Paulo, que também era poeta, e de artesãos como Walderedo Gonçalves e Inocêncio da Costa Nick. A xilogravura tornou-se a opção mais viável, substituindo os velhos e gastos clichês do espólio de Athayde. Ao mesmo tempo, entre as cidades pernambucanas de Gravatá e Caruaru, o poeta Severino Gonçalves de Oliveira, o Cirilo, autor de Cidrão e Helena, também recorria aos tacos de umburana para as capas de seus folhetos. A chamada Escola Pernambucana, cujo epicentro era Caruaru, conheceu notável expansão graças a gravadores como o paraibano radicado em Pernambuco José Costa Leite, José Francisco Borges (J. Borges), João Antônio de Barros (Jota Barros), Dila e Jerônimo Soares. Hoje, Marcelo Soares, irmão de Jerônimo, apresenta uma proposta que rompe, de certa forma, com a estética da gravura popular que marcou suas primeiras incursões, dando um tratamento mais elaborado às capas dos folhetos por ele ilustradas.

Não se deve esquecer, porém, dos cordéis da Editora Luzeiro, de São Paulo, publicados em livretos de formato 13,5 x 18cm, com 32 páginas e capa em policromia.

Classificações

A Literatura de Cordel foi, ao longo dos tempos, classificada e reclassificada sem que se alcançasse qualquer consenso. Alguns dos autores que propuseram classificações foram Gustavo Barroso e Luís da Câmara Cascudo, sob uma perspectiva tradicionalista; Manuel Diegues Jr., que reforçou a importância dos ciclos temáticos; Liêdo Maranhão, com sua classificação popular mais democrática e abrangente; Candace Slater; e Franklin Maxado; entre outros. Vejamos duas dessas classificações:

A de Liêdo Maranhão é bastante ampla:

Folhetos de Conselhos

Folhetos de Eras

Folhetos de Santidade

Folhetos de Corrupção

Folhetos de Cachorrada ou Descaração

Folhetos de Profecias

Folhetos de Gracejo

Folhetos de Acontecidos ou Época

Folhetos de Carestia

Folhetos de Exemplo

Folhetos de Fenômenos

Folhetos de Discussão

Folhetos de Pelejas

Folhetos de Bravuras ou Valentia

Folhetos de ABC

Folhetos de Padre Cícero

Folhetos de Frei Damião

Folhetos de Lampião

Folhetos de Antonio Silvino

Folhetos de Getúlio Vargas

Folhetos de Política

Folhetos de Putaria ou Safadeza

Folhetos de Propaganda

Já Manuel Diegues Jr. propôs uma classificação mais sintética, distribuindo o Cordel em três grandes grupos:

  1. Temas tradicionais:
    1. Romances e novelas;
    2. Contos maravilhosos;
    3. Estórias de animais;
    4. Anti-heróis, peripécias e diabruras;
    5. Tradição religiosa;
  2. Fatos circunstanciais ou acontecidos:
    1. De natureza física: enchentes, cheias, secas, terremotos etc.;
    2. De repercussão social: festas, novelas, astronautas etc.;
    3. Cidades e vida urbana;
    4. Crítica e sátira;
    5. Elemento humano: figuras atuais ou atualizadas (Getúlio; ciclo do cangaceirismo);
  3. Cantorias e pelejas.

O Cordel hoje

A editoração do Cordel no Brasil não ficou indiferente às crises econômicas que assolaram o país e, em vários momentos, a morte do gênero foi anunciada por estudiosos e colecionadores, como o paraibano Átila Almeida. O esgotamento da poesia popular em países da Europa, notadamente França, Espanha, Itália e, por último, Portugal, serviu de argumento para as vozes funestas, especialmente na década de 1980.

Houve, no entanto, um notável ressurgimento a partir do final dos anos 1990, com a fundação da editora Tupynanquim em Fortaleza, Ceará, que reavivou o mercado editorial do Nordeste. Dirigida pelo poeta e cartunista Klévisson Viana, a Tupynanquim retomou a tradição dos romances em versos e lançou novos autores, a exemplo de Rouxinol do Rinaré, Paiva Neves, Arievaldo Viana e Julie Ane Oliveira. Aos poucos, a tradicional editora Luzeiro, de São Paulo, recuperou parte do fôlego, relançando os clássicos do gênero e revelando novos autores. A produção feminina, de temática abrangente e que vai da jocosidade ao engajamento, consolidou-se com os talentos de Arlene Holanda, Josenir Lacerda, Ilza Bezerra, Clotilde Tavares, Mariane Bigio, Susana Moraes, Rosa Regis e Nezite Alencar, entre tantas e tantas vozes.

Marco Haurélio

Cordelista e pesquisador das tradições populares.

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